Rádio Buscar

Transferência de Marcola: é possível deixar líderes de facções incomunicáveis?

Cb image default
Imagem: Rogério Cassimiro - 8.jun.2006/Folhapress

Com a transferência de integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) para presídios federais, o governo espera isolar esses líderes. A intenção é dificultar o contato deles com o grupo e evitar que consigam dar ordens de dentro dos presídios. O líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outras 21 pessoas foram transferidos para presídios federais em Brasília, Rondônia e Rio Grande do Norte. Eles cumpriam pena em presídios estaduais em Presidente Venceslau e Presidente Bernardes, no interior de São Paulo. Por segurança, o governo disse que não divulgará para onde foram levados cada um dos 22 presos.

Em nota, o Ministério da Justiça disse que "o isolamento de lideranças é estratégia necessária para o enfrentamento e o desmantelamento de organizações criminosas". Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam, contudo, que é muito difícil garantir, mesmo em presídios federais, que os líderes não passem recados e tampouco recebam informações. Eles lembram que as facções são muito organizadas e estão sempre prontas para substituir seus líderes. Outro alerta feito por especialistas é a possibilidade de medidas como essa aumentarem a criminalidade nas cidades que recebem esses presos.

No mesmo dia da transferência, foi publicada uma portaria assinada pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, com regras para visitas em penitenciárias federais. O texto determina que as visitas sejam exclusivamente por parlatório -- ou seja, separado por um vidro e com comunicação pelo interfone -- ou videoconferência. A visita social será para cônjuges, companheiros, parentes e amigos, segundo o texto. O encontro em pátio de visitação só será permitida, uma vez por mês, para o preso que passar 360 dias seguidos com ótimo comportamento carcerário. 

RECADO POR MEIO DAS VISITAS 

Consultor do Senado na área de Segurança Pública, João Paulo Botelho diz que é possível que um presídio federal tenha uma segurança maior que um estadual, mas aponta que é muito difícil bloquear o contato do preso com o exterior do presídio.

Cb image default
Transferências têm ampliado os conflitos dentro e fora dos presídios, diz especialista Imagem: Polícia Federal/BBC.

"A transferência é para tentar tornar o cara incomunicável, mas sempre tem um agente que pode ser corrompido, um advogado ou familiar que vai transmitir recado pra fora, a revista pode não ser 100%, o pessoal tenta entrar com celular. Será que isso vai conseguir frear as ordens que esses comandantes vão mandar para fora?", questionou. Para Botelho, o cenário mais provável é que esses líderes continuem dando ordens de dentro dos presídios. O parlatório, segundo ele, é importante para evitar a passagem de material da visita para o preso, mas as informações são transmitidas. "A conversa não pode ser gravada ou filmada, então o conteúdo continua protegido. Ele pode ali continuar mandando e recebendo recado", disse. Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também acredita que a chance de dificultar a comunicação dos presos com suas facções é maior em presídio federal. "Mas vai conseguir um isolamento total e completo? Existe chance maior, mas não é certo", afirmou. O grande problema, segundo especialistas, é que mesmo em um cenário em que fosse possível isolar um líder, as facções estão organizadas para prontamente substituí-lo. "Sempre vai surgir outra liderança, o crime continua ativo. É uma empresa. Quando sai um chefe, entra o outro", afirmou Alcadipani. "O que a gente precisa é sufocar as facções financeiramente, repensar como a gente lida com a questão da droga no Brasil, combater a corrupção em todas as esferas." Para Botelho, é necessário "cortar o fluxo de traficantes, evitando a formação do criminoso". "A solução é afastar do crime durante a infância, na categoria de base.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.