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Soldados da PM se casam no interior de Minas: "Para que se esconder?"

A ideia de se tonarem policiais veio ainda durante a faculdade, quando prestaram concurso público. Após serem aprovados, mantiveram o relacionamento em segredo, pois tinham medo de que o ambiente não fosse aberto à comunidade LGBTQ+.

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Wilker Figueiredo e Victor Morais se casaram em dezembro

Imagem: Arquivo Pessoal

Victor Morais, de 26 anos, e Wilker Figueiredo, de 27, se tornaram soldados da Polícia Militar de Minas Gerais em 2016. Após a formatura, foram deslocados para Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, onde moram até hoje. Na cidade de 21 mil habitantes, os dois se mantiveram discretos sobre o relacionamento -- até se casarem, em dezembro. Eles se conheceram em 2013 na faculdade de Engenharia Hídrica em Teófilo Otoni, também no interior mineiro. Em entrevista à Universa, Victor contou que durante uma viagem para um congresso, os dois ficaram hospedados no mesmo quarto. A amizade foi o princípio da história de amor.

"Depois dessa viagem, a gente manteve contato, se encontrando de vez em quando. Virou uma amizade. Era bom estar com ele como amigo. A aproximação entre nós acabou rolando depois de um tempo, quando passamos a nos encontrar com mais frequência", conta. Na época, eles ainda não haviam se assumido gays. "Quando começamos a namorar, a gente ia para a casa um do outro e ficou difícil esconder da família. Tínhamos medo de que as pessoas que a gente ama virarem as costas para a gente. Tentei passar de uma forma bacana para os meus pais. Para eles entenderem que as coisas não mudaram, eu nasci assim", conta Victor, que mantém uma relação boa com os parentes. "A gente continua se amando".

Vida na PM

A ideia de se tonarem policiais veio ainda durante a faculdade, quando prestaram concurso público. Após serem aprovados, mantiveram o relacionamento em segredo, pois tinham medo de que o ambiente não fosse aberto à comunidade LGBTQ+. "Quando chegamos lá deixamos tudo embaixo dos panos. Ao longo do tempo, as pessoas foram descobrindo, mas a gente entrou sem falar nada para ninguém", afirma ele, que relembra ter ouvido algumas piadas homofóbicas, mas nada diretamente. "Nossos superiores ficaram sabendo, mas não sofríamos, porque isso vai contra a o que a gente aprende lá, que é respeitar e tratar bem o próximo."

Mudança de cidade 

A pequena cidade de Itaobim também foi motivo de preocupação dos dois. E, como conta Victor, a notícia de que um "casal gay de militares" estava se mudando para lá chegou antes deles mesmos. "Viemos para Itaobim sem falar muito no assunto. Somos muito discretos. Chegamos e já tinha notícia de que um casal gay se mudaria para a cidade. Nunca tocamos no assunto com ninguém. Somos muito reservados, e isso nunca interferiu no nosso trabalho. Se ninguém conta que é hétero, por que tenho falar que sou gay?", questiona.

União movimentou as redes sociais 

O casamento deles, em dezembro de 2018, rendeu um registro que ganhou mais de 16 mil curtidas no Instagram. "Faz dois anos que estamos aqui em Itaobim. Quando a gente resolveu se casar, decidiu tornar nosso amor público e estar com as pessoas que estão no ciclo de amizade. Todos nos respeitam. Para que ficar fingindo? Se esconder?", diz Victor. Além de movimentar as redes sociais, o casamento também foi assunto na cidade, também de maneira positiva. "Todo mundo só falava disso. A gente ter chegado antes e mostrado o nosso serviço fez com que fôssemos aceitos com mais facilidade".

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